A Mensagem na Garrafa

Perspectivas de fusões e aquisições no mercado de bebidas estão restritas ao segmento de destilados, devido a elevada concentração das cervejarias e o notável conflito de interesse entre produtores e distribuidores de vinhos.

O mercado de bebidas alcoólicas no Brasil, desde sua abertura ocorrida no governo Collor, vem experimentando crescimentos consistentes e aumentando consideravelmente sua importância na economia brasileira.

A indústria de bebidas e alimentos representa hoje aproximadamente 9% do Produto Interno Brasileiro (PIB), e que a participação de bebidas alcoólicas seja próxima de 3% no PIB. Tal relevância consolidou-se ao longo dos últimos 10 anos, principalmente devido ao aumento do nível tecnológico e competitivo da indústria brasileira.

O maior exemplo dessa relevância crescente é representado pela Anheuser-BuschInBev(AB-InBev), de capital belga-brasileiro. A companhia detém 25% do mercado mundial de cervejas e é a terceira maior empresa do mundo em FMCG (Fast-movingconsumergoods), que refere-se a categoria de bens de consumo com rápido giro no varejo, ficando atrás somente da Proctor& Gamble e da Nestlé e à frente da Unilever, Coca-Cola, PepsiCoe Kraft Foods(FMCG top companies, Forbes, 2010). A Ambev, é atualmente a empresa de maior valor de mercado na BM&Fbovespa.

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O setor de bebidas alcoólicas pode ser dividido entre cervejas, bebidas destiladas e vinhos (incluindo espumantes). O segmento de cerveja, composto por poucos players que controlam o mercado, recebe o maior volume de investimento em marketing do setor e ainda é a bebida mais consumida dentre as alcoólicas no país.

O Brasil é um importante mercado de destilados representado principalmente pela cachaça brasileira, a segunda bebida mais consumida no país, e que representa 80% do mercado de destilados. Os demais 20% estão divididos entre conhaque, uísque, vodca, dentre outros. O consumo anual de destilados no país é de cerca de 1,8 bilhão de litros e o faturamento chega a US$4 bilhões, metade do total do segmento de bebidas alcoólicas.

Tendências

Embora a cachaça tenha grande potencial de venda no mercado externo, principalmente com o movimento do setor em tornar o produto reconhecido como genuinamente brasileiro, sua expansão no mercado interno é limitada devido à entrada de novos produtos de maior adesão pelo consumidor jovem, comoas bebidas “readyto drink”, bebidas “ice”, entre outras.

A logística de distribuição é um fator estratégico essencial para a manutenção de vantagens competitivas no mercado. Nesse sentido, existe uma forte tendência de consolidação do setor através de processos de fusões e aquisições no Brasil, liderado por grandes companhias que procuram acessar a capilaridade de grandes marcas regionais, com portfólio mais amplo de produtos de maior valor agregado. Como exemplo, a aquisição da Ypiócapela Diageoem 2012 proporcionou à compradora o crescimento de 20% em número de pontos de venda no país, adicionando produtos como RedLabel, Smirnoff, dentre outros. A exploração de tais sinergias fundamentou o múltiplo de 19 vezes EBITDA nessa transação.

Outro exemplo da consolidação do setor é a aquisição da Sagatibapela Campari(DavideCampari-Milano) em 2011, desta vez motivada pela marca já consolidada no mercado brasileiro.

O segmento de vinhos tem uma dinâmica diferente. Como a maior parte do vinho consumido no país é importado, o mercado é controlado por distribuidoras. O que se observou na segunda metade da década de 2000 foi a criação de centenas de importadoras devido ao forte crescimento da indústria no período, bem como a preferência dos produtores pelos distribuidores menores na construção de marca. No entanto, grande parte das distribuidoras menores não possuem escala suficiente para competirem em preço, e para manterem-se no mercado terão que obter vantagens competitivas baseadas na estratégia de diferenciação. Por outro lado, os grandes distribuidores não se interessam em desenvolver marcas, pois a grande maioria dos consumidores de vinhos buscam experimentar novos produtos, sem necessariamente se fidelizar a uma marca específica (dinâmica totalmente diversa dos segmentos de destilados, onde a marca sobrepõe-se até mesmo à qualidade do produto).

Nesse sentido, movimentos de fusões e aquisições no segmento são muito raros, tanto pela fragilidade das marcas quanto sua distribuição, caracterizando-se, assim, como um setor em consolidação lenta através de seleção natural sustentada por vantagens competitivas dos distribuidores maiores.

Portanto, considerando a lenta consolidação do segmento de vinhos e a grande concentração das cervejarias, as oportunidades de aquisições estão restritas ao segmento de destilados, onde ainda existem empresas familiares de marca forte e destacada presença regional.

Fonte:

ABIA.ORG.BR; INDUSTRIADEBEBIDAS.COM.BR; BNDES; IBRAVIN.ORG.BR; ABIR; ABRIAC.

Autor: Vinicius Basílio e contribuição de Alexandre Fadel, associado à Camaya Partners e CEO da MaxBrands

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